O silêncio está ensurdecedor nessa escuridão toda. Somente as pequenas luzes do painel, que piscam intermitentemente, não me fazem cair no sono – um sono que seria muito bem-vindo, nessa época em que sonhar não parece mais ser permitido.
Deixo de pensar por alguns instantes na missão que me foi confiada, naquilo que me fez estar onde estou agora, para onde estou indo nesse momento. Para abstrair um pouco, deixo de fitar o painel, e olha para cima … As estrelas estão particularmente brilhantes nessa noite.
Faz tanto tempo que eu não olho para o céu, que eu não vejo as estrelas. Elas estão sempre lá, mas eu não as vejo. Estou em diversos lugares, no passado, no futuro, mas quase nunca no presente, no tempo imediato. Não só eu, mas parece que todos a minha volta estão assim já há algum tempo – na corrida contra tempo, ficam sem tempo para ver as estrelas, para olhar para o céu.
Não para patrulhar o céu, mas apenas para admirá-lo, para olhar sem sentido, sem um objetivo determinado que seja. As estrelas brilham todas as noites, mas quase nunca as vemos, quase nunca temos tempo para vê-las, como se o agora sempre escapasse de nossas mãos, não importa o quanto tentemos capturá-lo, usá-lo e gastá-lo todo …
… … …
O silêncio volta a gritar à minha volta, na medida em que paro de pensar um pouco. Nesse momento, estou sozinho, apenas eu e meus sonhos, eu e as estrelas para me fazer companhia nessa noite que não deveria, mas que se tornará tão escura. A realidade logo vai me afastar das estrelas, e me jogar na roda-viva dos acontecimentos novamente.
Como se para as estrelas, do alto de seus milhões de anos, importasse sinceramente o que eu, uma pessoa que não vai viver em toda sua glória nem sequer uma ínfima fração do tempo delas, fizesse ou deixasse de fazer.
… … …
Não, para elas os antigos povos que migravam não são em nada antigos, para elas toda nossa existência humana não é mais do que uma fosforescente piscadela em seu brilho estelar. As estrelas estavam lá quando começamos, e estarão no céu quando há muito já tivermos deixado esse mundo para sempre. Elas estavam lá quando Sínissi Cid e seu grupo zarpou com o barco, mas acho que nenhum deles as viu então. E as estrelas brilhavam no céu quando Ash Miná tomou a última fortaleza dos Notáveis, mas nem ele nem ninguém de suas tropas certamente as viram então.
As estrelas estão sempre lá, no céu. Nós é que não as vemos, por ver demais outras coisas, outros assuntos, outros céus feitos de sonhos inalcançáveis, nossos sonhos individuais, nossos sonhos coletivos.
É um sonho coletivo que me traz a esse momento. Não sei até que ponto temos opções individuais na vida, na medida em que o coletivo nos envolve, nos inunda, nos persegue sempre. Na hora de partir, me disseram: “O seu sucesso será o nosso sucesso”. Mas será que as minhas dúvidas são as dúvidas deles também? Seria minha hesitação a hesitação deles também? Talvez eu não quisesse estar aqui agora. Talvez eu não queira fazer parte desse sonho coletivo. Eu acho que gostaria de ser apenas eu, eu e as estrelas no céu …
Eu … eu só queria olhar as estrelas um pouco mais …
Subitamente o som duro de tiros me tira dos meus devaneios.
A missão começou, a despeito de minhas hesitações, de minhas dúvidas.
As estrelas sumiram novamente, e meus olhos agora estão fixos.
Tenho uma missão a cumprir, e farei o melhor que puder.
Um caça manobra com destreza, se desvencilhando das baterias antiaéreas do solo, e solta sua carga. Explosões cortam a noite como facas afiadas. O caos que se segue no solo confirma o cumprimento do objetivo – o aeroporto dos Natoo foi destruído, e com eles o efêmero sonho de grandeza de uma nação, que pode, talvez, voltar a ver as estrelas depois que isso tudo acabar. Para Cid, que ganhará a guerra e ficará com a ilha de Cin, as estrelas continuarão encobertas pelo véu da noite um pouco mais.