— Mesmo que vocês mulheres adorem falar sem parar, consegue resumir o ocorrido?
Não é fácil ser mulher em Natoo. Ainda mais nesse ramo.
— Quer um resumo? Aí vai. O cargueiro afundou, levando não só as provas contra o Lamubé como também o meu informante.
— Mas o que causou a explosão?
— Por que pergunta pra mim? Pergunta pros assessores do prefeito, já que foi ele que afundou.
— Detetive Tária, essa é uma acusação muito grave! Se não fosse o nome da sua família, eu poderia prendê-la agora mesmo!
É, admito. Seria tudo ainda mais difícil se eu fosse pobre.
— Mas já que não pode, eu vou tratar de encontrar evidências que liguem a prefeitura ao Lamubé. Afinal, esse é o meu trabalho.
— Pois faça o seu trabalho em outra agência. Está demitida!
Demitida?! Depois de tantos casos bem sucedidos?! Eu devia esbofetar esse safado, corrupto, medíocre desprezível…
— … Pois muito bem. Até nunca mais, senhor Barese.
Levanto da cadeira e saio daquele nojento escritório onde desperdicei tantas horas da minha vida o mais rápido que posso. Assim que ponho os pés para fora, puxo os ombros do meu casaco para perto do peito. Os ventos marítimos que vêm castigar Ahántose todas as noites estão particularmente frios hoje. Como centenas de navalhas a alvejar meu coração já partido.
Só me resta afogar as mágoas, com o melhor amigo do homem.
— Ei, Sone! Me vê uma bebida bem forte.
— Não prefere algo mais suave desta vez?
Ele tem que perguntar isso toda vez! Ai, como isso me irrita!
— Só faz o que eu estou pagando pra você fazer, pode ser?
— Certo, certo, não tá mais aqui quem falou. Hoje está sozinha? Cadê aquele rapagão com cara de bebê?
Não respondo. Não consigo responder. Apenas escorrem lágrimas do meu rosto gélido.
— Oh, entendi. Só mesmo uma bebida forte pra curar uma traiçao.
Dárikos nunca me trairia. Eu tenho certeza. Mesmo que pudesse conhecer todas as mais lindas mulheres Cid, Toi ou mesmo Tawtone, ele jamais me trairia. Não, não estou chorando por isso.
— Aqui, a sua bebida.
— Oi? Ah, sim. Obrigado, Sone.
Ah, nada como uma bebida forte descendo em chamas pela garganta. Dárikos ficou tão alegrinho na noite em que o trouxe aqui. Para um marinheiro, era bem fraco com bebida. Nossa, nunca vou esquecer aquele sorriso lindo de agradecimento.
— Uau! Vocês ricos sabem viver, hein! Ai, meu amor! Só você mesmo pra me proporcionar uma coisa tão boa.
Mas foi você, Dárikos. Foi você quem me proporcionou a melhor coisa de todas: sonhar com mundos melhores.
— Que pena que nasceu aqui, Tária. Tem uma porção de países em Moa que tratam as mulheres com o respeito que merecem. Sabia que tem alguns onde elas mandam?
— Ouvi falar. Mas nunca conheci pessoalmente ninguém do povo Nan, então…
— Elas são reais. Já tratei com gente de lá. E aparentemente os países das Nan não são tão ruins como dizem.
— Ai, Dárikos. Que impressionante. Você conhece o mundo todo! Enquanto eu nunca nem saí de Natoo.
— Mas poxa, você conhece os rincões desse país! Já eu nunca passo dos portos. Se eu tenho quantidade, você tem qualidade.
Com o Dárikos eu nunca me sentia inferior.
— E conheceu mulheres em quantidade também, não é?
— Conheci. Por isso as respeito e as admiro. Mas só amo uma.
Lisonjeiro. Galanteador. Meu coração parecia que ia desmanchar com suas palavras, e seus toques arrepiavam cada pelo do meu corpo.
Claro, esses momentos eram escassos. A maior parte do nosso tempo juntos era para tratar de negócios. Eu pagando, por fora, uma a uma, as dívidas de seus colegas marinheiros, e ele, em contrapartida, fornecendo as provas que eu precisava para incriminar Daminoe Lamubé, o popular e carismático dono da maior franquia de lojas de móveis de Natoo, como o cabeça de um esquema ilegal de tráfico de drogas transoceânico. Um cretino sorridente que não titubeia em deixar rastros de sangue para manter seu principal ramo em segredo.
Mas rastros podem ser seguidos por alguém com bom faro. Alguém como eu. E foi o meu faro que me levou ao Dárikos, um dos muitos empregados nos navios de Lamubé. Um de seus muitos serviçais.
— É assim que ele nos tem todos na coleira.
— Mas eu não entendo. Por que se meteram com um bandido desses em primeiro lugar?
— E que escolha têm pessoas como nós?
Não adianta. Por mais tempo que eu passasse nas ruas, fazendo o trabalho sujo que muitos homens no meu ex-departamento têm medo de fazer, continuo sendo uma garotinha mimada nascida em berço de ouro. Não sei o que é ter de vender sua vida para sobreviver. Muitos e muitas me desprezam por isso. Mas Dárikos não. Ele era bom, mesmo com todos os motivos do mundo para ser mau.
— Tá se arriscando demais com essa coisa toda, Tária.
— Não mais que você. Se te descobrirem, te matam com certeza.
— É, antes eu não tinha medo de correr esse risco. Mas agora eu tenho. Morrer agora vai me afastar de você.
E ele morreu. Pois nem todos como ele percebem suas correntes. Dárikos estava disposto a dar a vida para libertar seus colegas, seus irmãos. E um deles o delatou. Para Lamubé e todos que cairiam junto dele, um simples navio da frota é um preço muito barato a se pagar. Puxa, como eu queria ter descoberto a sabotagem a tempo. Teria impedido o meu marinheiro de entrar naquela ratoeira, e a nossa inesquecível noite no cais do porto não teria sido a última.
Estava chovendo. Nossos casacos praticamente grudavam em nossas peles. Foi bom. As gotas se misturaram ao suor.
— Eu ainda estou com as pernas bambas.
— E eu com a cabeça nas nuvens.
— Toma cuidado, Dárikos.
— Não se preocupa. O mar sempre cuidou de mim.
Eu sorri, ele também, e nós nos beijamos. Um beijo intenso e ao mesmo tempo curto, aconchegante e ao mesmo tempo excitante. Ah, como pode um homem com mãos tão ásperas ter lábios tão macios?
Dárikos falava cheio de paixão das maravilhas do mar e dos muitos tesouros que ele esconde. Agora ele é o tesouro mais precioso nas suas profundezas. Porém, este tesouro não vai atrair a atenção de aventureiros, pesquisadores ou gananciosos. Apenas de mim.
E eu vou atrás dele. Não de seu corpo, pois este já está na barriga dos peixes. Vou atrás de sua honra. Vou até o fim com a investigação. Vou fazer o traidor implorar pelo meu perdão antes de arrancar o ar de seus malditos pulmões. Vou fazer Daminoe Lamubé e todos os seus associados sentirem a mão pesada da justiça. Vou garantir que nunca mais outros como ele tenham de vender suas almas.
Porém, ainda mais importante. Vou atrás de seu espírito. Vou ver com os meus próprios olhos países onde as mulheres são livres para ser o que quiserem ser. E vou ser livre também. Conhecê-lo fez asas surgirem nas minhas costas. E eu vou abri-las. Eu vou voar.
… … …
Os mares de Moa são cheios de surpresas, e Tária, em breve, irá descobrir essa realidade, para o bem, e para o mal. Também irá descobrir que não tinha com o que se preocupar, pois o mar, como sempre, cuidou bem de seu amado Dárikos.
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